domingo, 15 de dezembro de 2013

SAÚDE EM MOÇAMBIQUE: SECTOR HUMANO E INFRA ESTRUTURAS HOSPITALARES, RUMO À QUALIDADE.

DOTAR os hospitais do país de serviços de qualidade e com humanismo é a grande aposta do programa de reconhecimento de enfermarias-modelo, uma iniciativa que desde 2008 está a ser implementada pelo Ministério da Saúde, MISAU.A ideia é que qualquer estudante encontre nos hospitais nacionais um bom campo de estágio e que qualquer trabalhador que esteja a iniciar a carreira ou que queira aperfeiçoar encontre nas unidades sanitárias um lugar de excelência para prosseguir com a sua carreira. Acima de tudo, o resultado final é a satisfação do utente com a qualidade dos serviços prestados. Foi na esteira do reconhecimento há dias da enfermaria da Pediatria do Hospital Geral da Machava, como enfermaria-modelo que a nossa Reportagem entrevistou Olga Novela, chefe do Departamento de Enfermagem no Ministério da Saúde. De entre os vários aspectos aflorados, a nossa conversa destacou a necessidade de uma maior adesão rumo a um serviço de qualidade generalizado, como forma de igualar os serviços públicos aos privados que até agora são detentores de um atendimento considerado de qualidade. Reconheceu o facto de serem ainda muito poucas as enfermarias até agora reconhecidas, mas considera que é a partir da manutenção delas que se pode pensar em altos voos rumo a mudanças significativas a nível dos hospitais. Daqui em diante siga a conversa com a nossa entrevistada:
Not.:De algum tempo a esta parte o MISAU desenvolveu uma iniciativa visando a distinção das enfermarias que melhor assistência prestam aos doentes. Pode nos falar da filosofia dessa iniciativa?  
OLGA NOVELA (ON): Nós optámos pelas enfermarias-modelo, primeiro, para melhorar a qualidade da assistência e do ensino, porque as enfermarias-modelo são também os melhores campos de estágio que nós temos. Por outro lado, a filosofia incide no factor mudança de comportamento dos nossos trabalhadores. Criámos as enfermarias-modelo também para responder às inquietações da população quanto à nossa prestação, sobretudo nos serviços de internamento, pois, embora trabalhemos em diversos serviços, damos maior enfoque aos internamentos.
Not.:Há quanto tempo é que se implementa essa iniciativa no país?
ON: Instituímos as enfermarias-modelo em 2008, com a formação, a definição da política da enfermaria-modelo, a elaboração do instrumento de medição do desempenho do trabalhador e começámos com a enfermaria de Cirurgia II do Hospital Central de Maputo. Esta escolha dependeu mais do factor proximidade, pois poderíamos ter começado com uma outra, mas o sítio mais próximo para fazermos a monitoria para podermos pensar na expansão foi aquele.
Uma boa classificação determina o reconhecimento
Para que uma enfermaria-modelo seja classificada como tal há que observar vários passos e respondendo a pontuação estabelecida.
Not.:Quais são os pressupostos para que uma enfermaria seja modelo?
ON: Fizemos um instrumento de avaliação que avalia o desempenho do trabalhador nessa enfermaria onde temos nove áreas a serem avaliadas, a saber: a docência para a área do estágio, recursos humanos, rotina de procedimento de enfermagem, actividades clínicas, a segurança do utente, saúde e segurança do trabalhador, satisfação do utente, do trabalhador e do estagiário.
Not.:Como é medida a satisfação do utente, por exemplo?
ON: Durante o internamento, é entregue ao doente um instrumento de medição do seu grau de satisfação que são três cartões, um verde, outro amarelo e um outro vermelho. As cores dos cartões têm significado: o verde significa que está tudo bem, o amarelo é intermédio e significa que a assistência é mais ou menos boa e o vermelho indica mau atendimento. Eles, os utentes, vão escrever e dizer o que sentiram na enfermaria. Aqueles que não sabem escrever depositam somente os cartões na urna e vamos contando e em função dos resultados que vamos obtendo verificarmos aonde é que está a pender a balança. Quando temos muito amarelo é que temos de fazer um esforço adicional, se for vermelho temos de ver o que está a acontecer e procurar saber o que é e as causas se for possível modificar todo o xadrez da maneira de ser. É reconhecida como modelo a enfermaria que obtiver em cada uma das áreas avaliadas 80 por cento de resultado.
Not.:Quantas enfermarias é que já foram reconhecidas como modelo?
ON: São neste momento sete. A Cirurgia do HCM, que foi reconhecida por duas vezes, a Ortopedia e Cirurgia do Hospital Provincial de Xai-Xai em 2011, Beira com a de Medicina reconhecida em 2012, Nacala em Setembro último, a Pediatria do Hospital Geral da Machava, reconhecida recentemente e resta-nos o Hospital de Chimoio com uma enfermaria a ser reconhecida ainda este ano. O título de enfermaria é anual para que os trabalhadores não fiquem relaxados e trabalhem cada vez mais para a manutenção do título, pensando na avaliação que acontece de três em três meses, por intermédio de técnicos do MISAU. Aqueles que perderem na avaliação obviamente que deixarão de ser modelo.
SENTIMOS UM ENTUSIASMO
Os que atingiram o patamar de modelo sentem-se motivados pelo facto e atraem os restantes a seguirem o exemplo e, dessa forma, os mentores da iniciativa vêem que há um entusiasmo.
Not.: Desde 2008 a esta parte certamente que tiveram resultados. Que impacto é que os mesmos têm para as restantes enfermarias?
ON: Por onde nós temos enfermarias-modelo, notamos que os próprios trabalhadores querem ser modelo. Notamos uma preocupação em melhorar cada vez mais os serviços e que gostariam de receber a distinção. Os próprios utentes gostariam que em todas as unidades sanitárias fossem modelo. Daí que, onde temos enfermarias reconhecidas, mesmo as que não se candidataram para o efeito, acabam adoptando as boas práticas exercidas pelos seus colegas de outros departamentos. Há pouco tempo fomos distinguidos na Função Pública por boas práticas.
Not.:Dos resultados já alcançados em certas enfermarias, o que é que falta para que a iniciativa seja extensiva a todos os hospitais?
ON: Diria que o maior constrangimento tem a ver com os recursos humanos. Nós temos nos nossos internamentos, nas províncias e distritos, enfermarias com duas pessoas na mesma cama, vai encontrar enfermarias superlotadas e acima do que seria o ideal, ter 60 camas. Como temos poucas pessoas, a capacidade de resposta para a chamada é igualmente diminuta. Nessas enfermarias só temos uma pessoa ou duas no máximo. Quando está a preparar a medicação, do outro lado está uma chamada que leva muito tempo a ser respondida. Na enfermaria-modelo em cada 15 camas temos um enfermeiro e aí quando um enfermeiro está sozinho, praticamente não consegue dar uma resposta atempada. Enquanto não tivermos pessoal suficiente não vale a pena começarmos nos hospitais. Se quisermos introduzir alguma coisa nova tem de ser algo que fará diferença na vida das pessoas sob ponto de vista positivo. Quando temos resultados podemos fazer algo mais. Se pegamos as 15 mil unidades sanitárias de uma vez chegaremos ao fim sem resultado nenhum. Temos igualmente de trabalhar com o factor motivação. Não interessa começarmos a sufocar para não termos bons resultados.
Not.:Em termos do número de trabalhadores e doentes qual é o rácio ideal?
ON: De acordo com os parâmetros da Organização Mundial da Saúde OMS, o ideal é termos um trabalhador para cada quatro doentes. Neste momento temos 10 mil enfermeiros para os cerca de 23 milhões de habitantes. O mínimo estipulado para a enfermaria-modelo, que é ao nível da nossa realidade, são 15 camas para um enfermeiro, com a excepção dos cuidados intensivos. E há aqui um pormenor a ser tomado em conta: a enfermagem não é só dar medicação é muito mais do que isso.
Not.:Tendo limitação em termos de recursos financeiros, como é que se consegue recursos para tornar uma enfermaria-modelo com higiene ideal em comparação com os outros serviços. Haverá uma gestão autónoma ou tudo parte do geral?
ON: No que toca à área de higiene e limpeza, felizmente todos os serviços já têm essa componente resolvida, uma vez que o padrão de limpeza é para todos. A diferença é que enquanto na modelo temos de avaliar aquele item a fim de responder os 80 por cento especificamente, nos outros serviços avalia-se no geral. Mas aqui há que ter em conta que a limpeza de uma enfermaria é diferente de uma limpeza de uma casa com poucas pessoas. No Hospital temos áreas sujas, temos várias coisas que dependem exclusivamente de uma limpeza minuciosa e há que saber por onde começar e todos os trabalhadores de saúde aprenderam e sabem disso.  
Not.: Mas a satisfação do utente passa pela motivação do profissional. Que estímulo é dado ao trabalhador de forma a dedicar-se com mais afinco no trabalho?
ON: O alcance dos resultados é uma das motivações. Eles quando fazem um trabalho alcançam um objectivo e são reconhecidos isso já é uma motivação. Para além de que ver algo que não estava bem e que hoje está traz uma satisfação no utente. Outra motivação é a candidatura dos trabalhadores dessas enfermarias para uma formação e isso é uma vantagem. Em termos de prémios damos alguns incentivos ainda que não de grandes valores monetários porque não os temos. Na Pediatria da Machava, por exemplo, deixámos alguns incentivos para os trabalhadores como computador, impressora, loiça e uma gama de prendas para os trabalhadores daquela enfermaria. São pequenas coisas que estamos a dar, mas que mudam a vida deles no seu local de trabalho. Mensalmente as direcções elegem o trabalhador do mês, colocam a sua fotografia no corredor e numa reunião mensal homenageiam-no. Há o certificado e outras iniciativas simbólicas.
TER UM HOSPITAL PÚBLICO QUE COMPETE COM O PRIVADO
Tornar todos os hospitais ao nível de enfermaria- modelo é a aposta do MISAU mas, pela exiguidade de fundos, apenas se trabalha a nível de enfermarias. Contudo, o desafio é ter hospitais públicos a competir com os privados, em termos de assistência.
Not.:Para um futuro breve, quais são os grandes desafios?
ON: O nosso grande desafio neste momento é trabalharmos com os centros de formação e institutos. As universidades que estão a fazer formação de técnicos de saúde devem assumir este desafio. Mas o maior de todos é criar condições para uma melhor qualidade de assistência a nível de todas as unidades sanitárias do país. Ainda não conseguimos uma enfermaria em cada hospital, mas conseguido isso começaríamos a pensar em hospitais modelo. Seria muito bom termos um hospital-modelo e do Estado porque até agora o que temos de modelo são hospitais privados. Queremos um hospital público que compita com o privado e que tenha uma assistência de qualidade. Somos capazes de fazer isso mas o que conta é a mudança de comportamento do trabalhador e se conseguirmos que haja um respeito mútuo entre o doente e o trabalhador teremos um grande ganho. Competir não só internamente como também a nível da região austral é outra aposta.
Not.:Actualmente quantas enfermarias se candidataram a modelos?
ON: São actualmente 70 em processo de serem modeloe isso já é um passo muito grande quando as próprias direcções dos hospitais vêem a necessidade e importância de aderirem à iniciativa. É a população ou comunidade que tem a ganhar, as comunidades e os próprios trabalhadores.
Not.:O que usam como instrumento de conduta?
ON: Temos um instrumento muito importante que não só serve para avaliar. O trabalhador se está a fazer noites e com um turno calmo pode sentar, ler e ver o que pode fazer com base no instrumento para melhorar a sua prestação: o mesmo instrumento que ensina é o mesmo que avalia.
SETE ENFERMARIAS SÃO UM GANHO
Pelo tempo da implementação das enfermarias-modelo, o número reconhecido revela-se irrisório mas, segundo a nossa entrevistada, é um grande ganho e a manutenção delas seria uma inspiração para as restantes.
Not.:De 2008 para cá são 70 candidatos e apenas sete é que foram reconhecidas. O que é que os números significam?  
ON: Já é um avanço. Não é a guerra ganha mas sim uma batalha em cada enfermaria-modelo e o nosso desafio é que as direcções dos hospitais onde as enfermarias estão implantadas trabalhem mais para manter ou subir mais, uma vez tratando-se de uma avaliação anual. Também não adianta hoje termos sete para amanhã ficarmos com duas. Olhando para o tempo parece pouco mas é muito para quem viu por onde nós começámos. A mudança de atitude é que está em jogo em todo este processo. Não basta só comprar um raio X e colocá-lo à disposição, o importante é como esse raio X será utilizado e preservado e aí entra em jogo a atitude que leva muito tempo.
Not.:Os pressupostos são colocados para todo o hospital ou numa enfermaria apenas?
ON:O ideal seria que fosse todo o hospital, pois as dificuldades são maiores e o maior problema é a exiguidade dos recursos humanos. Então, em cada hospital, a respectiva direcção escolhe uma enfermaria que na sua óptica está em condições de concorrer. Os resultados encontrados nessa enfermaria estimulam também as restantes áreas e quando formos a fazer a expansão já se tem ideia do que é uma enfermaria-modelo. Quando fomos criar a da enfermaria da cirurgia II a ideia era trabalhar naquela enfermaria mas agora o HCM está a expandir aquela enfermaria. Agora estamos nos hospitais, central, provinciais e agora estamos nos hospitais distritais. Em 1500 unidades sanitária seria impossível fazer avaliação por isso tínhamos de começar de algum lugar. Outro pormenor é que temos de fazer a monitoria dessas enfermarias, pois não basta ter sido reconhecida uma vez para ser sempre modelo. É preciso uma avaliação contínua.
Not.:A propósito da motivação, a greve dos profissionais da Saúde não teria afectado os objectivos traçados?
ON: Felizmente, olhando para o país inteiro, tivemos problemas a nível da cidade de Maputo e noutras províncias o trabalho manteve-se e as pessoas estiveram a trabalhar plenamente. Com isso não quero dizer que não temos problemas, temos sim mas fizemos um esforço para que eles não afectassem o nosso desempenho e os objectivos de toda uma carreira.
Not.:Para que a greve não interferisse negativamente o que é que pesou nos trabalhadores?
ON: Pesou a consciência individual e compromisso com o trabalho. A prova de que não ficámos afectados com a greve está o reconhecimento hoje de uma enfermaria. Mesmo agora temos problemas mas estamos a trabalhar porque jurámos para trabalhar. Sabemos quais são as nossas dificuldades vamos lutar para resolvê-las mas a trabalhar.
Anabela Massingue"
FONTE JORNAL NOTICIAS DE MOÇAMBIQUE.
 
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