sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ZAMBEZE - PELA PENA DE OLIVEIRA BÓLEO, EM MOÇAMBIQUE 1951

“A do Zambeze: — O Zambeze é um dos grandes rios africanos. Do seu curso, com 2.364 quilómetros de extensão, só 850 correm no território moçambicano. Alarga-se a sua bacia hidrográfica por cerca de 1.400.000 quilómetros quadrados. Nasce nos Montes Caomba, a 1.600 metros de alti­tude, perto da fronteira portuguesa de Angola, correndo os primeiros 260 quilómetros com a direcção NE-SW. Desenha em seguida uma larga curvatura para sul, de­pois para sudeste e leste, despenhando-se de várias que­das e cataratas (Gonha, Nambua, etc.), até ao formi­dável salto de 120 metros de altura, com um pano de água de 1.600 metros de largura, ou sejam as célebres Cataratas Vitória, a que os indígenas chamam Mosia­-oa-Tunia. Estão decorridos 960 quilómetros de percurso, e, até às majestosas cataratas, o rio é designado por Liambai.Passa agora a chamar-se Liambeje, e mais adiante Riambeje, virando o rumo para NE neste novo percurso de 554 quilómetros até ao Zumbo, fronteira moçambi­cana, quase sempre encaixado entre montanhas altero­sas, estreitando-se em repetidás gargantas (Dévil’s Gorge, Kariba Gorge, etc.) ou acelerando a marcha nos rápidos frequentes (de Molele, de Kansala, e outros). Se não era de admirar que a princípio, até à confluên­cia com o Luena, tivesse um declive de 1,6 m. por quiló­metro, e depois este declive passasse apenas a 0,20 m. por quilómetro até às Cataratas Vitória, é de notar agora que deste ponto até ao Zumbo o declive subiu para 1 m. por quilómetro. Enfim, atravessada a fronteira, passa a chamar-se Zambeze, e o rio alarga-se, corre sensivelmente W-E até à confluência com o Capoche, passando por Carinde, Máguè, Chicoa, para flectir para SE. Porém, ao longo de 112 quilómetros, desde o rápido Inhataco até Penha dos Arrojados, e antes da flexão, forma as conhecidas cascatas e rápidos de Cahora-Bassa, nome que outros indicam Queruabassa, Carcabassa, Caourabassa, etc. Decerto o Zambeze correu primitivamente, nesta secção, sobre um manto de Karroo, que eliminou. En­contrando o substrato granito-gneissico, de desigual du­reza, impôs-se-lhe, mas o trabalho de erosão, mais fácil nuns pontos que noutros, desenhou as cascatas, as ca­choeiras, os rápidos e as gargantas, chegando estas a ter apenas uma largura de poucas dezenas de metros. Depois o Zambeze volta a espraiar-se, recebe pode­rosos afluentes, passa por Inhartreze, não longe da Mis­são de Boroma, e alcança Tete, e logo forma duas ilhotas permanentes. Na margem esquerda banha Benga, que, pelo rio, embarca parte do carvão do Moatize, passa à célebré Massangano, a Sungo, desenha a ilha que chamam de Moçambique, e estreita-se nas Gargantas da Lupata, onde a largura não vai além de 200 metros, menos de um quarto da que antes alcançara. De novo espraiado, forma numerosas ilhotas, muitas delas povoadas, desde Tombara, por Ancuaze, Chemba, Mutarara, até à confluência com o rio Chire. Embora cada ilhota tenha designação própria, dão ao seu con­junto o nome de «Ilhas do Governo» (61). Depois de Vila Fontes, passada a Serra Chamoara, e ainda a 130 quilómetros da embocadura, começa a desenhar um enorme delta, com numerosos canais, nem sempre per­manentes. Mas, se uns se assoreiam, outros são rasga­dos. Por isso, ao longo da ocupação portuguesa, vários têm sido os braços do deita utilizados para a entrada no Zambeze. O braço do Chinde, tão atacado ultima­mente pela erosão fluvial, é hoje o utilizado. De sul para norte os braços principais do deita zam­beziano são: Luabo de Oeste, ou rio Luana, Melambe, Inhamissengo ou Congone, Luabo de Leste ou Tímbuê (Tíinoè), Barra Catarina, Barra do Chinde, e muito ao norte, o rio dos Bons Sinais, ou Cuácua (Quácua), ou de Quelimane. Entre estes dois últimds braços do delta muitos ri­beiros recortam o triângulo de terras, como o Linde, Maindo, Inhamona, mas, quando das cheias, a confusão de todos os canais é indescritível. Ao longo do seu extenso percurso o Zambeze recebe numerosos tributários, como o Lungue-Bungo, Cuando, Kabompo, Guay, Kafuê, etc. Porém, interessam-nos por agora, mais especificadamente, os seus afluentes em ter­ritório moçambicano. Pela margem esquerda, logo à entrada da fronteira, recebe o Aruângua Grande, volumoso tributário com 800 quilómetros de comprimento; o Muze, o Luía, o Mavúzi, o Revúbuè, e principalmente o Chire, que drena as águas do lago Niassa, atravessa o lago Pamalombe e se despenha pelas Cataratas de Murchison, embocando no Zambeze, junto do Chindio. Pela margem direita recebe o Panhame, o Messen­guézi, o Daqué, o Mazói-Luenha, o Pômpuê, o Zânguê, e outros.As embarcações médias sobem o Zambeze, com certa dificuldade na época seca, até 420 quilómetros da em­bocadura.”, Transcrição das páginas 57 a 60, MOÇAMBIQUE, 1951, pelo Doutor Oliveira Bóleo.

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