domingo, 1 de agosto de 2010

MOÇAMBIQUE- TURISMO - Ministro do Turismo, Fernando Sumbana, antevê: Seremos uma das jóias de África

"Ministro do Turismo, Fernando Sumbana, antevê: Seremos uma das jóias de África

O GOVERNO tem se concentrado em alterar substancialmente a geografia do turismo de Moçambique. Através do “Projecto Arco Norte”, o “Executivo” pretende posicionar as províncias de Cabo Delgado, Nampula e Niassa como importantes e sustentáveis destinos turísticos internacionais, com base na exploração dos recursos lá existentes. Em entrevista ao “Notícias”, o ministro do Turismo, Fernando Sumbana, disse que a decisão de se avançar com o projecto “Arco Norte” e outros “âncoras”deve-se, em parte, à constatação de que é possível beneficiar das vantagens comparativas que o nosso país tem, face aos fortes potenciais concorrentes na região, como são os casos da África do Sul e do Zimbabwe. “Temos águas mornas durante todo o ano, enquanto que os nossos concorrentes vizinhos têm água gelada. Temos também a vantagem de termos locais que reúnem praia e fauna bravia, são os casos da Reserva Especial de Maputo e do Parque Nacional das Quirimbas. Podemos fazer a ligação de locais com grande potencial histórico-cultural com praias e, aqui, posso apontar os casos de Mossuril e Ilha de Moçambique. Efectivamente, só podemos esperar por uma “explosão”, no sentido positivo, de novo produto turístico em Moçambique”, disse o ministro. Entretanto, passamos de seguida a transcrever os extractos mais significativos da entrevista que o ministro do Turismo, Fernando Sumbana, concedeu ao “Notícias”:Maputo, Segunda-Feira, 2 de Agosto de 2010:: Notícias
Notícias (Not) – Quais são os desafios para o sector do turismo nos próximos cinco anos?
FERNANDO SUMBANA (FS) - O grande desafio é iniciarmos os projectos âncora e o projecto Arco Norte. Se fizermos isso, de facto, já selamos o turismo em Moçambique; nada será como antes! O segundo desafio é a formação. Estamos a ter muitos projectos turísticos, mas que não são acompanhados pela a formação. Temos que formar cozinheiros, serventes de mesa e chefes de sala e é isso que está a levar muito tempo.
A terceira dimensão é continuarmos a fazer a promoção do nosso País. Queremos que Moçambique seja “a jóia” da África Austral. Quando as pessoas olharem para aqui deverão ver a combinação da simpatia do povo, os recursos naturais e a segurança. Esta é a nossa grande aposta.
Not – Se por um lado, os investidores estrangeiros trazem mais valia para a economia, por outro, vêm com alguns problemas para a população local, que tem reclamado por situações de racismo e de restrições no acesso a certas áreas de interesse turístico. O ministério do Turismo está ciente deste problema? Como combate estas situações?
FS - Para combater isso é preciso aplicar a lei. Uma coisa interessante é que Moçambique é dos poucos países que na sua lei de investimentos pôs uma cláusula que foca especificamente a questão da não discriminação em função da raça e religião. Claro que a própria Constituição já protege, mas não quisemos deixar de reafirmar para que, de facto, não haja dúvidas sobre essa matéria. O que fizemos foi percorrer todo o país com inspecções multisectoriais (envolvendo os sectores do Turismo, Trabalho, Finanças, Meio Ambiente e Transportes e Comunicações) e fomos visitar todos esses locais. Tenho que confessar que se ainda aparecerem casos, só podem ser esporádicos e se alguém apresentar evidências sacamos o alvará – não temos meias medidas nesse sentido. Temos estado a fazer uma sondagem, sobretudo, aos locais mais sensíveis que são os casos da Ponta de Ouro, na província de Maputo, e de Inhambane. O que constatamos é que houve uma altura em que quando se discutia sobre o turismo falava-se de racismo, mas esse já não é o debate. A matéria que se está a discutir em relação ao turismo é procurar ver como é que os investidores nacionais podem entrar; que emprego podemos colocar; e a questão das posturas, porque muitas vezes damos licenças para construir e o indivíduo em vez de fazê-lo no local indicado, aumenta a dimensão do terreno.
Not – Mas a população local continua a reclamar pelo facto de alguns desses investidores terem o descaramento de colocar placas com “No black”. O Sr. Ministro tem conhecimento destes factos?
FS – Se tiverem visto isso é capaz de ter sido há sete anos, agora não há essas placas em nenhum sítio. A questão do racismo é algo que preocupa a todos nós. Não podemos permitir que isso aconteça, de forma alguma. Já temos a nossa independência. Neste momento, a nossa batalha é contra o racismo subtil que se caracteriza na demora no atendimento, tendo como motivação a pigmentação ou então, por alguma razão, alguém de raça negra entra naquele local e lhe apresentam um preço bastante elevado para determinado produto. Essa é que é a nossa grande batalha, porque é difícil de verificar. O próprio cliente é o maior fiscal e ele imediatamente pode solicitar uma verificação. Nalguns momentos mandamos quadros nossos disfarçados para verificarem esse tipo de situações.
VENDER A TERRA É DESAFIAR A LEI
Maputo, Segunda-Feira, 2 de Agosto de 2010:: Notícias
A lei prevê que 20 por cento das receitas provenientes da exploração dos recursos naturais devem ser canalizado para as comunidades locais. Este facto está a acontecer?
FS – Estão todos a receber, pontualmente. Houve um momento em que havia uma certa demora porque não tínhamos a certeza sobre a quem entregar o cheque. Trabalhamos com as comunidades; elas se organizaram, abriram as contas e estão a receber o dinheiro e já aplicaram em moageiras, em furos de água e até em outras infra-estruturas sociais como salas de formação. Se olharem para a reserva do Niassa, Quirimbas, Bazaruto, Limpopo, enfim, está-se a distribuir o dinheiro. Não há uma única área que não esteja a receber. São muitos milhões de meticais que ajudam a população a se direccionar para algumas coisas que fazem diferença na sua própria vida. Mas para além disso, há uma outra dimensão que é da responsabilidade social. Por exemplo, o Parque de Gorongosa construiu uma escola moderna numa zona onde não havia aquele tipo de infra-estrutura. As crianças que não iam à escola já têm acesso à Internet, já há um posto de saúde com maternidade e com uma equipa médica que assiste ás comunidades à volta do parque. O Parque de Gorongosa desenvolveu um centro comunitário que permite às crianças irem para lá se inteirarem do que é o parque. Desenvolveu também uma fábrica de secagem da fruta para a venda local e posterior exportação. Também está a trabalhar com as comunidades na melhoria das machambas para terem melhores rendimentos.
Not – Que avaliação o Governo faz da concessão do Parque Nacional de Gorongosa à Fundação CARR?
FS – Não fizemos concessão nenhuma. Fizemos um acordo de gestão conjunta; temos um representante lá. As decisões são tomadas por esses dois – um da Fundação Carr e o nosso representante. Quando as coisas ultrapassam a sua dimensão, eles consultam o ministério do Turismo e daqui sai a voz do Governo e nós estamos satisfeitos pelo que está a acontecer.
Not – Há sectores que dizem que o Governo exagerou nas expectativas à volta do “Mundial” na África do Sul. Na verdade, o que falhou no marketing e na promoção turística externa para que Moçambique não tivesse tido um maior proveito deste evento?
FS – Respeito muito a opinião das pessoas, mas tenho estado a notar notícias que não são secundadas com dados estatísticos. Se nos pedissem os dados estatísticos talvez estivessem a fazer outro tipo de declarações, mas é muito natural que isso aconteça pela forma entusiástica com que fizemos a promoção do “Mundial”, e é essa a nossa maneira de ser como moçambicanos. Tínhamos o campeonato mundial a ser realizado pela primeira vez no continente africano, aqui ao lado; trabalhamos com o Governo sul-africano no sentido de abrir as oportunidades; trabalhamos com o sector empresarial para que aproveitássemos as oportunidades. É verdade que o Governo criou o ambiente possível e os investidores aproveitaram as oportunidades. O que aconteceu também é que os “media” locais e internacionais começaram a dizer que na África do Sul havia ameaças e sinais de terrorismo; problemas de xenofobia e tensão entre negros e brancos devido à morte de Terreblanch. As pessoas começaram a cancelar as reservas para a África do Sul.
A nossa expectativa e todo o nosso trabalho eram para drenar parte dos que fossem à África do Sul, visitarem Moçambique. Então, se reduziu lá na própria fonte, que é a África do Sul, naturalmente que Moçambique não há-de ter o mesmo número que esperava. Contudo, fizemos um trabalho de verificação em Inhambane e noutros locais e procuramos saber junto dos operadores e nos diziam que tinham muitas reservas para os meses de Junho e Julho. A conclusão a que chegamos é que o efeito do “Mundial” na África do Sul fez com que algumas pessoas saíssem daquele país para fugir do ‘stress’. Então, isso também é negócio para nós; e registamos crescimento. Comparativamente ao período homólogo do ano passado, registamos um crescimento em termos de turistas de cerca de 25 por cento.
(A. Marrengula)MOÇAMBICANOS ENTRE OS QUE GASTARAM MAIS
Maputo, Segunda-Feira, 2 de Agosto de 2010:: Notícias
Os dados publicados dizem que os moçambicanos estão entre os que mais gastaram neste período na África do Sul…
FS – No que respeita ao fluxo de ida para à África do Sul e vinda para Moçambique, tem que se ver que aqui há questões conjunturais. Nem todos os moçambicanos que vão para a África do Sul fazem-no por lazer. Qualquer ‘mukherista’ que atravessa a fronteira, para os sul-africanos é turista. Normalmente faz compras muito elevadas para vir vender no país e aquilo entra nas estatísticas dos sul-africanos. Eles têm a vantagem de fazer essas estatísticas e é nisso que estamos a trabalhar para também começarmos a registar aqui.
De facto, os moçambicanos e os angolanos têm sido os campeões em termos de visita e de receitas para a África do Sul, mas não só, todos os países vizinhos o são. Tal como para nós, os sul-africanos são os que mais nos visitam; a África do Sul por si, representa 40 por cento e o Zimbabwe contribui com 31 de todos os que visitam Moçambique. Portanto, uns vão para um lado e os outros para o outro. Hoje estamos a falar de 3.100.000 visitantes para Moçambique, quando em 2004 falávamos de 711.000. Então, há um crescimento muito grande em termos de movimento aqui para o país.
Not – Como é que se está a incentivar o turismo doméstico?
FS - Decidimos introduzir uma marca nacional que é “Capulana Hotéis e Resorts”. São empreendimentos de pequena dimensão que vão de 8 a 32 quartos. Já estão a ser desenvolvido ao nível dos distritos, sobretudo naqueles que têm pouco alojamento. Ao abrigo desse projecto, lançamos concursos para que os moçambicanos sejam os gestores desses empreendimentos. No momento em que cedemos ao moçambicano, primeiro ele é treinado na gestão do hotel. Quando ele inicia já não há aquela justificação de que o negócio caiu porque ele não tinha.
Para além disso, vamos fazer a monitoria constante. Tudo será padronizado; se vai à um “Capulana” na Moamba e vai a um outro em Alto Molócuè, encontrará exactamente o mesmo tipo de serviços e com reciclagem permanente. Isso vai trazer mais moçambicanos que, de outra maneira, não iriam para o turismo. É uma forma positiva de pôr investidores nacionais no negócio, mas também de levar a nós outros para visitarmos o potencial que existe nos distritos. Os preços vão ser feitos de maneira a caberem mais ou menos no nosso bolso.
(A. Marrengula)PERFIL DO ENTREVISTADO
Maputo, Segunda-Feira, 2 de Agosto de 2010:: Notícias
Durante a entrevista, procurarmos saber um pouco mais sobre quem é o Ministro do Turismo, que chegou a acumular as pastas com a da Juventude e Desportos. Afinal quem é Fernando Sumbana? É casado? Tem filhos?- Questionamos e sem reservas, respondeu:
FS – Nasci na Manhiça, província de Maputo, em 1954. Sou casado e tenho 2+2 filhos, isto é, tenho dois filhos meus e dois filhos que ficamos com eles que são de uma cunhada minha que faleceu. Para nós (eu e a minha esposa) estes também são nossos filhos, efectivamente. Vivi uma parte da minha vida na Manhiça, até cerca de 6/7 anos de idade e o resto passei aqui na cidade de Maputo, em bairros como Chamanculo e Xipamanine. Trabalhei no Comércio Externo toda a minha primeira fase. Nessa altura, estava na coordenação de lojas como supermercado (LM). Passei depois para as empresas de ferragens e muito cedo puseram-me a dirigir essas empresas e isso proporcionou-me muita experiência. Depois fui transferido para o ministério onde trabalhei na área de Relações Internacionais; Direcção de Importações; passei pelo Instituto de Cereais; fui ao Centro de Promoção de Investimentos e agora estou aqui, no Ministério do Turismo. A dado momento, fui docente na Faculdade de Economia da Universidade Eduardo Mondlane, onde leccionava a cadeira de “Marketing Internacional”. Já não dou aulas por falta de tempo, mas voltarei na primeira oportunidade que tiver.
Not - Há quem o considere um dos moçambicanos mais ricos. Concorda? E qual é a fonte dessa riqueza?
FS – Eu é que gostaria de saber qual é a fonte dessa afirmação…e com que estatística é que apresenta isso… Já ouvi pessoas a dizerem o mesmo nos jornais. Até pensei que fosse uma brincadeira e nunca me preocupei com o assunto. O que acho que podem fazer é, de facto, verificarem onde é que está essa riqueza, a partir daí terão, então, a possibilidade de ver. Até porque fizeram bem em me perguntar isso, porque pode ser que haja pessoas que especulem sem conversar comigo. Gosto de trabalhar e ninguém vai me convencer a fazer o contrário; trabalho desde manhã até à noite e procuro usar muito bem a minha cabeça para o bem.
Not – Qual é a sua formação, Sr. Ministro?
FS - Sou mestrado em Administração de Negócios
Not – Qual é o seu ‘hobby’?
FS - Faço desporto e pinto. Ouço esporadicamente a música.
Not – Gosta de comida moçambicana?
FS – Gosto, mas se me perguntarem qual é o meu prato preferido hei-de ter problemas em indicá-lo. Mas gosto da matapa com caranguejo e também da feijoada.
Not – Sabe cozinhar ou aprecia o que os outros fazem?
FS – Quando não tenho alternativa cozinho e sai bem.
Not - Admira alguém em particular?
FS – Admiro, sim, aos meus pais.
NOT - Porquê a eles?
FS - Pela educação que nos deram. Somos irmãos muito unidos e quando um sente uma dor no dedo, praticamente os outros todos também sentem.
Not – Quantos irmãos tem?
FS – Treze. Oito são do mesmo pai e da mesma mãe. A minha mãe faleceu e o meu pai teve um segundo casamento de onde nasceram mais cinco filhos, mas temos uma relação muito próxima e que faz com que não sintamos essas diferenças. Somos irmãos solidários, amigos estamos juntos sempre que possível.
Not – Que tipo de desporto pratica?
FS – Sou um grande faltoso do judo. De vez em quando tenho ido treinar, mas o problema é que aqueles miúdos que lá estão batem-me muito, mas não deixa de me dar prazer. Também sou um frequentador assíduo das nossas avenidas e marginais onde ando cerca de sete quilómetros, entre cinco e seis vezes por semana.
Delfina Mugabe e Paulo da Conceição"

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