sexta-feira, 19 de junho de 2015

PAZ PARA MOÇAMBIQUE, PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE FILIPE JACINTO NYUSI, EM REUNIÃO COM ACADÉMICOS PEDIU-LHES SUGESTÕES PARA GARANTIR A MANUTENÇÃO DA PAZ EFECTIVA NO PAÍS

"Nyusi pede ajuda à academia para paz efectiva em Moçambique

Montepuez, 18 Jun. (AIM) – O Presidente da República, Filipe Nyusi, reuniu-se hoje com a comunidade académica, incluindo docentes, estudantes e corpo técnico administrativo, da Universidade Pedagógica, delegação de Montepuez, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, a quem pediu sugestões para garantir a manutenção de uma paz efectiva no país.
Para o efeito, convidou os participantes a contribuírem com propostas conducentes a estimular a paz e uma melhor convivência entre os moçambicanos.
O Presidente da República também aproveitou a oportunidade para convidar os presentes para fazerem o mesmo com relação ao ensino em Moçambique que, nos últimos tempos, tem sido alvo de fortes críticas por causa da sua questionável qualidade.
Segundo Nyusi, esta iniciativa surge no âmbito do princípio de governação inclusiva e participativa do seu Executivo.
“Quero libertar-vos da lamentação, do murmúrio, da suposição para que sejam vocês próprios a dizer o que devemos fazer para que possamos viver em paz. Vocês fazem parte de uma classe com capacidade de avaliar o que deve ser efeito e de uma forma sustentável”, disse Nyusi, dirigindo-se a comunidade académica daquela instituição do ensino superior.
Aliás, numa mensagem dirigida ao estadista moçambicano, que hoje completa o segundo dia de uma visita presidencial a Cabo Delgado, os residentes de Montepuez fizeram questão de frisar que “não queremos mais regressar a guerra, porque só traz pobreza e dor nas famílias”.
Assim, acedendo ao convite do estadista moçambicano, Erasmo Elias, estudante do quarto ano do curso de Psicologia Educacional sugeriu que o governo deveria prestar uma maior atenção às comunidades que votaram a favor da Frelimo e seu candidato presidencial.
Sustenta ainda que uma das formas de garantir a paz “é necessário que a paz esteja comigo mesmo e depois esteja com o meu próximo, com a minha família e com toda a comunidade”.
“Enquanto eu não tiver condições básicas de vida, estarei em paz”, acrescentou, citando como exemplo a necessidade de cobrir as casas das pessoas mais carentes para que se possam abrigar da chuva, em caso de tempestade.
Mencionou ainda a necessidade de se criarem condições para os projectos juvenis.
João Maurício, do Departamento de Ciências de Educação e Psicologia disse que urge procurar novas técnicas, como forma de melhorar a produtividade do diálogo entre as delegações do Governo e da Renamo, o maior partido da oposição em Moçambique, que se arrasta há mais de dois anos no Centro de Conferências Joaquim Chissano, em Maputo.
Sobre a qualidade de ensino, Maurício disse que o problema surge na base, ou seja no ensino primário, que é a principal fonte de “matéria-prima”.
Por isso, disse Maurício, o esforço do Governo deveria ser no sentido de procurar introduzir reformas no ensino primário.
“O que temos visto é que as vezes chegam estudantes com dificuldades de leitura e escrita”, explicando de seguida que não cabe ao ensino superior suprir esse défice.
Silvestre Jafar, do Departamento de Ciências Filosóficas, defende que para que a paz seja efectiva é necessário envolver todos os actores e estratos, incluindo aqueles considerados de “inimigos”.
“A paz não é só ao nível do governo, mas também ao nível de todo aquele que é cidadão moçambicano. A paz tem que estar comigo mesmo. Eu tenho que ser paz, o outro também deve ser paz. Todos devem ser paz. A paz não deve ser apenas de um grupo. Isso significa que se deve pensar cada vez mais na questão de um diálogo permanente. Tem que ser um diálogo que traga resultados aí nós iremos promover uma paz efectiva”, rematou.
Comentando sobre as contribuições dos intervenientes, Nyusi fez questão de recordar aos presentes que seus discursos gravitam sempre em torno da paz.
Aproveitou a ocasião para explicar melhor uma das suas frases, e que se tornou muito popular e que diz “no meu coração cabem todos os moçambicanos”.
Com isso, explicou Nyusi, “quero dizer que todas as preocupações deles (de outros partidos) devem ser resolvidas. Significa que todos os pensamentos encontram lugar para nós podermos discutir aspectos diferentes da vida”.
No fim da manhã de hoje, Nyusi dirigiu um comício no âmbito da visita presidencial àquele distrito, durante o qual um cidadão manifestou a sua apreensão com a presença dos homens armados da Renamo em território nacional.
O estadista moçambicano explicou que o governo continua a aguardar pela lista das pessoas da Renamo que deverão integrar nas Forças de Defesa e Segurança, incluindo Polícia da República de Moçambique (PRM) e Forças Armadas.
Contudo, advertiu que se forem idosos os mesmos não poderão ser integrados, por exemplo na PRM, por causa da sua incapacidade física. Mas serão, seguramente, reintegrados para que possam receber as suas respectivas pensões.
Por isso, numa clara alusão ao líder da Renamo, Afonso Dhlakama, o Presidente moçambicano disse aos presentes, “como … costumam vir aqui (membros da Renamo e seu
líder), e até reúnem com algumas pessoas, então quando vierem peçam a eles para me entregarem a lista.
Explicou que os homens armados da Renamo não deveriam passar o resto de suas vidas no mato porque também têm o dever de tomar conta de suas famílias e seus filhos, bem como fazer as suas actividades económicas.
“Basta nos darem a lista depois vamos que vamos ajudá-los. Essa é nossa obrigação, sou Presidente de todo os moçambicano.
Ainda na tarde de hoje Nyusi orientou uma sessão extraordinária do governo distrital alargada a outros quadros e reuniu-se com os membros das Associações de Mineração Artesanal.
Na sexta-feira o estadista moçambicano escala o distrito de Chiúre."
FONTE: PORTAL DO GOVERNO DE MOÇAMBIQUUE.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MOÇAMBIQUE DIAMANTES: EMPRESA AUSTRALIANA DESCOBRE DIAMANTES NA CONFLUÊNCIA DOS RIOS SAVE E RUNDE

"Empresa australiana descobre diamantes na confluência dos rios Save e Runde

Maputo - A Mustang Resources anunciou a descoberta em Moçambique do primeiro depósito de diamantes de qualidade e com valor de mercado do país.
A descoberta de 16 diamantes, revelada na segunda-feira, aconteceu no projeto que a empresa cotada na Austrália desenvolve na confluência do rio Save, que divide o sul e o centro de Moçambique, e o rio Runde, junto da fronteira com o Zimbabué. "
FONTE: LUSA MOÇAMBIQUE.

terça-feira, 16 de junho de 2015

SIGAME REALIZAÇÃO EM MAPUTO MOÇAMBIQUE 19 DE JUNHO SEXTA FEIRA ENTRE AS 8H30M E AS 11H00M HOTEL AVENIDA



GORONGOSA, PARQUE NACIONAL, SOFALA , MOÇAMBIQUE O CONSULADO - GERAL DE PORTUGAL NA BEIRA/CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS - PÒLO NA BEIRA E O PARQUE NACIONAL DA GORONGOSA , 18 DE JUNHO 18H00M, QUINTA-FEIRA

"Refª  191
17-06-2015
Caros Compatriotas,


O Consulado-Geral de Portugal na Beira / Centro Cultural Português-pólo na Beira e o Parque Nacional da Gorongosa  têm a honra de vos convidar para
 a apresentação das duas mais recentes obras sobre este Parque Nacional moçambicano, recentemente agraciado pelo Presidente da República de Portugal como Membro Honorário da Ordem do Mérito, por ocasião das comemorações deste ano do Dez de Junho.

Trata-se da apresentação dos seguintes títulos, lançados já em Portugal (em março deste ano) e em Maputo (em abril, na Feira do Livro da Minerva):


1. Uma Janela para a Eternidade, de Edward O. Wilson
Trata-se do testemunho do "pai da biodiversidade", o cientista Edward O. Wilson, a propósito do projeto de restauração que está a ser levado a cabo no Parque Nacional da Gorongosa, considerado pelo cientista um dos locais do mundo mais ricos em biodiversidade. A obra é prefaciada por Mia Couto, conta com fotografias de Piotr Naskrecki e contém um DVD com o filme O Guia, de Jessica Yu, que testemunha uma das passagens de E. O. Wilson pelo Parque Nacional da Gorongosa.


2. Contos da Gorongosa, de Domingos Muala
Conjunto de narrativas relativas à tradição oral e cultural das comunidades da Serra da Gorongosa (Tambara, Canda e Sadjungira), recolhidas no ano 2009 por Domingos Muala, com ilustrações de Anunciação Matos. Trata-se de uma edição trilingue, estando os textos publicados em Português, Inglês e Sena (a língua bantu maioritária na região do Parque Nacional da Gorongosa).


Na cerimónia de apresentação dos dois livros, contamos com a presença do Dr. Mateus Mutemba, administrador do Parque Nacional da Gorongosa; de Domingos Muala, autor do livro Contos da Gorongosa; e de Ricardo Guta, do Laboratório de Biodiversidade E. O. Wilson / Departamento de Serviços Científicos do Parque Nacional da Gorongosa.
A animação cultural ficará a cargo do Movimento Literário Kulemba, nomeadamente dos seus membros Lídia Simango (ex-locutora reformada da Rádio Moçambique) e Dany Wambire (escritor), que declamarão alguns excertos do livro Contos da Gorongosa, em Português e Sena.


Contamos com a vossa presença!

Saudações,


António G. I. Pereira
Cônsul-Geral de Portugal na Beira

Rua António Enes, 148/149 2º andar
Beira - Moçambique
tel. 00 258 23 32 60 76 / 23322296 / 23326066
fax 00 258 23 32 46 88

FONTE: CÔNSUL - GERAL DE PORTUGAL NA BEIRA.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MOÇAMBIQUE : GOVERNO COMPROMETE-SE A APLICAR AJUDA INTERNACIONAL EM CRESCIMENTO INCLUSIVO, ESTUDANTES MOÇAMBICANOS BENEFICIAM DE ESTÁGIOS PRÉ - PROFISSIONAIS EM PORTUGAL, MAPUTO ACOLHE FESTA DO CINEMA ITALIANO PELA SEGUNDA VEZ. FONTE LUSA MOÇAMBIQUE


   MOÇAMBIQUE

Governo compromete-se a aplicar ajuda internacional em crescimento inclusivo

Maputo - O ministro da Economia e Finanças de Moçambique, Adriano Maleiane, comprometeu-se na segunda-feira junto dos parceiros internacionais do grupo G19 a aplicar a ajuda ao Orçamento do Estado em crescimento económico sustentável e inclusivo da população.
"Reiteramos o nosso compromisso em prosseguir com ações centradas no aumento de rendimento e promoção do crescimento económico sustentável e inclusivo", disse Adriano Maleiane, durante a cerimónia de anúncio do apoio em 2016 dos Parceiros de Apoio Programático (PAP), mais conhecidos como G19, ao orçamento moçambicano, no dia em que o grupo passa a ser presidido por Portugal.

Estudantes moçambicanos beneficiam de estágios pré-profissionais em Portugal

Maputo - Estudantes moçambicanos vão beneficiar de estágios pré-profissionais em Portugal, no âmbito de um acordo de cooperação entre os dois estados, informou um comunicado do Ministério do Trabalho, Emprego e Segurança Social de Moçambique.
De acordo com o comunicado, a cooperação surge no contexto do encontro entre o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social de Portugal, Pedro Mota Soares, e a ministra do Trabalho, Emprego e Segurança Social moçambicana, Vitória Diogo, no âmbito da 104.ª Conferência Internacional do Trabalho, que teve lugar entre 01 e 13 de junho em Genebra.

Maputo acolhe Festa do Cinema Italiano pela segunda vez

Maputo - Maputo vai acolher, a partir de terça-feira, a 8 ½ Festa do Cinema Italiano, um evento organizado pela Embaixada da Itália na capital moçambicana, no âmbito da divulgação da cultura transalpina em Moçambique.
"É muito importante poder voltar a Moçambique este ano para continuar o nosso percurso nos países lusófonos na apresentação de cinema italiano de qualidade", refere um comunicado da Embaixada da Itália em Moçambique, que promove a iniciativa, durante cinco dias em Maputo, em que serão transmitidos cinco filmes italianos: "Capital Humano", de Paolo Virzí, "Basilicata Coast to Coast", de Rocco Papaleo, "I nostri ragazzi", de Ivano de Matteo, "La sedia della felicità", comédia de Carlo Mazzacurati, e "Que estranho chamar-se Federico", de Ettore Scola."
FONTE LUSA MOÇAMBIQUE

domingo, 14 de junho de 2015

CPLP CONFEDERAÇÃO EMPRESARIAL ( CE - CPLP) UM BANCO DE DESENVOLVIMENTO PODERÁ SER CRIADO EM BREVE, ADIANTOU O SEU PRESIDENTE O EMPRESÁRIO MOÇAMBICANO SALIMO ABDULA

ECONOMIA

A SEMANA : 

"Confederação Empresarial da CPLP quer criar Banco de Desenvolvimento 12 Junho 2015

A Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP), está a criar vários “órgãos umbrella” por forma a “maximizar” os seus objectivos. Um Banco de Desenvolvimento poderá ser um deles. A novidade foi adiantada esta quinta-feira, 11, pelo presidente, Salimo Abdula.

Confederação Empresarial da CPLP quer criar Banco de Desenvolvimento
A nova presidência da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) está em Cabo Verde para mais uma etapa no périplo que o líder, Salimo Abdula, está a fazer entre os Estados-membros. Após visita à Guiné Bissau, a comitiva foi esta quinta-feira, 11, recebida pelo chefe do Governo cabo-verdiano, José Maria Neves.
Entre os ambiciosos projectos da CE-CPLP apresentados agora em Cabo Verde, está um Banco de Desenvolvimento ou uma instituição financeira do género. Para isso, explicou Abdula, a organização está a criar vários “órgãos umbrella”. A União de Bancos é um deles - está a reunir os bancos comerciais e centrais da CPLP de forma a criar uma plataforma. A visão é que seja criado a médio prazo, um instrumento financeiro como um Banco de Desenvolvimento, “potenciador do sector produtivo e da industrialização dos países da CPLP”.
Encima da mesa estiveram ainda os sectores do turismo, energético e o agro-negócio. A tão falada livre circulação de pessoas, bens e capitais do ceio da CPLP também entrou na conversa com o PM cabo-verdiano. Ambição que a CE-CPLP partilha com alguns dos Estados-membro. A confederação vê neste projecto uma porta aberta para o desenvolvimento socio-económico dos países deste bloco. Já outros poderão ver esta "oportunidade" como uma autêntica dor-de-cabeça - caso de Portugal que tem sobre as costas o peso da União Europeia. Daí, menor interesse.
Sanny Fonseca"
FONTE: JORNAL A SEMANA DE CABO VERDE

LIDIA JORGE, ESCRITORA DE REFERÊNCIA, VIVEU E FOI PROFESSORA NO ENTÃO LICEU PÊRO DE ANAIA DA BEIRA, SOFALA, MOÇAMBIQUE


"Lídia Jorge: Música e imagens gratificadoras

Lídia Jorge fala sobre leitura, as histórias que lhe fizeram companhia ao longo da vida e o poder metafórico dos livros. “Neste momento”, diz, “há milhares de páginas a serem escritas que podem renovar o mundo”.


Lídia Jorge senta-se na sua biblioteca para ser fotografada. Escolhe-se, para a fotografia, o canto onde tem imagens de escritores nas prateleiras, pequenos quadros cobrindo algumas lombadas da biblioteca. Senta-se e olha para a câmara, enquanto faz perguntas sobre os ângulos preferidos dos fotógrafos. A luz vem da janela à direita, alta sobre uma grande avenida de Lisboa. Lídia Jorge tem uma elegância que combina com aquelas imagens de escritores que guardou, faz pensar noutro tempo e, por outro lado, parece que o tempo não passa por ela, como uma xerazade que tivesse encontrado o segredo para entreteter o grande carrasco.
Foi comprando as fotografias a preto e branco, de Virginia Woolf, William Faulkner, Tennessee Williams, Samuel Beckett, Franz Kafka ou Camilo Pessanha, ao longo dos anos. Não tanto por admiração ou para procurar inspiração, mas como companhia. Escrever pode ser solitário. Ler, pelo contrário, é uma maneira de não estar sozinho. E ainda que os livros desapareçam, fiquem perdidos pelo caminho, entre mudanças de casas, de cidades ou de países, muitos problemas de espaço, a memória da leitura já será suficiente para se andar por qualquer lado com uma pequena multidão.
Foi sobre a memória de algumas leituras que fez durante a vida que falámos com Lídia Jorge. Isso, e a importância que continua a ter uma maneira de olhar para o mundo que é própria da literatura e que talvez seja insubstituível. Falar de livros é falar de metáforas e logo de realidade: de política, de amor, de guerra, de erotismo.

Lídia Jorge tem sido reconhecida como uma das mais importantes escritoras europeias e, em Portugal, faz parte de uma geração marcada pela experiência da ditadura, da relação colonial, da violência da guerra. Uma geração que viu tudo mudar e, depois, tanto permanecer.
Na parede em frente da pequena galeria de escritores, ou na parede atrás da câmara do fotógrafo para onde olha, está um pequeno quadro com uma citação do escritor argelino assassinado em 1993, Tahar Djaout: “Le silence c'est la mort / et toi si tu te tais / tu meurs / et si tu parles / tu meurs / alors dis et meurs” (“O silêncio é a morte / e tu se tu te calas / tu morres / e se tu falas / tu morres / então diz e morre”).
 As primeiras companhias
“Lembro-me muito bem do primeiro livro que li, Maria Tonta [como Eu]. Começava: 'Maria Tonta, Maria Tonta, Maria Tonta, de tanto ouvir repetir Maria Tonta já não se lembrava do verdadeiro nome, Maria Francisca, como a mãe lhe chamava quando era pequenina.' A Maria Tonta foi uma grande companheira. Foi o primeiro livro que aprendi a ler por mim mesma.”
Era a história de uma menina que parte de uma aldeia, que podia ser uma aldeia como a aldeia onde Lídia Jorge cresceu no Algarve, para a cidade, mas acaba por não se adaptar e regressa a casa.
“Eram tantas as asneiras que ela fazia que resolveu voltar para a terra e ao regressar, e ao ver os pinheiros da aldeia, pensa que não se importa que a chamem de Maria Tonta. Eu tinha pena dela, pena daquele destino. Sentia-me incomodada com aquela escolha – então agora já não se importa que a chamem de Maria Tonta – mas, por outro lado, achava que ali é que ela estava no sítio certo. Não conseguia decidir se ela tinha feito bem ou não. Até hoje, não consegui resolver essa questão. Acho que foi a primeira obra aberta que li.”

Lídia Jorge cresceu rodeada de mulheres. A mãe ensinou-a a ler, antes da escola. E com a avó, que lhe contava histórias tradicionais, aprendeu a ouvir.
“A minha avó tinha um regaço maravilhoso. Abria os dois joelhos e eu sentava-me na saia, fazia um balouço. Ficava a vê-la de baixo para cima. Ainda hoje, quando vejo uma criança a ouvir histórias penso nisso, na sabedoria que vinha do alto, da boca da minha avó.”
Assim que soube ler bem, começou a ler alto nos serões, para as outras mulheres da família. Cada noite lia mais um pouco de um romance, e cada noite as ouvintes seguiam a história, envolvendo-se com as personagens, alegrando-se, temendo, chorando lágrimas verdadeiras por elas. Foi assim, através desses livros que lia em voz alta, que começou a entrar, muito cedo, no mundo dos adultos.
Sujar as mãos
“Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história.”, lê-se no início de O Dia dos Prodígios. O primeiro romance de Lídia Jorge foi publicado em 1980 quando percebeu que as personagens, como os mortos – os passados e os futuros – se levantavam, diziam coisas a quem ouvisse.
Na altura da Guerra Colonial, Lídia Jorge estava em Moçambique e sobre esse período e essa memória escreveria em A Costa dos Murmúrios. Não estava na frente da batalha, mas tudo era uma frente naquela altura. Sozinha, sem muitas pessoas que conhecesse e ainda menos pessoas com quem partilhasse interesses, lia. “Vivia aquele mundo com uma espécie de silêncio.” Ler era um pequeno refúgio mas, simultaneamente, um ampliar de mundo. “Foram leituras que me abriam o mundo, ao mesmo tempo que eu estava a abrir o meu mundo”, conta.
Noutra paisagem, noutra cultura, tão distante da visão central europeia, fazia sentido procurar outras literaturas. Embora já conhecesse alguma da literatura norte-americana que a influenciou, sobretudo  Faulkner, foi em África que leu os sul-americanos. A exuberância daquela literatura condizia com a exuberância da paisagem. “Lembro-me de uma viagem que fiz entre a Beira e Maputo, com o Rayulea, o Jogo da Amarelinha, do Cortázar. Ia a meio do livro e lembro-me do desejo que tinha de chegar para continuar a ler.”
De certa forma, O Dia dos Prodígios é um livro sob a influência de Juan Rulfo ou de Gabriel García Márquez ou Julio Cortázar – ou mesmo William Faulkner – não tanto porque procurasse neles um estilo ou uma escola, mas porque foram autores que a ajudaram a acreditar na sua própria história.
“O que eles me vieram dizer era que o imaginário que eu trazia comigo era válido literariamente. Havia um imaginário do romance francês, na moda na altura, que me parecia um luxo. Porque eu tinha uma história bárbara, uma vida semi-selvagem atrás de mim, no lugar onde tinha crescido, e em África onde tinha tido uma experiência tão forte. Eles mostraram-me que não era preciso lavar demasiado as mãos. Mesmo com as mãos sujas, podia escrever. Não era tanto o estilo mas a posição deles: a crença de que as raízes contam.”
Lídia Jorge tinha desde sempre conhecido a sua Comala ou o seu Macondo, isto é, a nossa Comala ou Macondo, e lançou O Dia dos Prodígios na muito jovem democracia que era então Portugal, em que tudo parecia estar a mudar, quase de um dia para outro.
“Acho que escrevi esse primeiro romance como uma espécie de ultra-reportagem – de um povo que ia mudar”, diz. “Depois não mudou assim tanto.”
Terreno para caminhar
Há livros que são, para um escritor, como mapas. Não mapas precisos fabricados com a mais alta tecnologia, mas mapas em processo, mapas de quando ainda de desconheciam partes do mundo e iam sendo marcados na água os lugares onde se descobria que afinal ali havia terra firme.
Desde pequena que parecia natural a Lídia Jorge que os livros fossem escritos por homens ou por mulheres, e que fossem lidos por homens e por mulheres. Foi só em adulta que entendeu que não era tão simples.
Tinha lido a Agustina Bessa-Luís, a Isabel de Nóbrega, a Sophia de Mello Breyner, mas foi sobretudo com a Maria Teresa Horta, a Maria Velho da Costa e a Maria Isabel Barreno, e as Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 e logo banido pelo regime, que Lídia Jorge começou a pensar sobre esse espaço de conquista e no tempo de falar do corpo ou da intimidade.
“A nossa diferença de idade não é muita, mas eu tive a ideia de que era um terreno conquistado, que estava feito. E fui completamente tomada pela questão da História. Creio que as escritoras da minha geração tiveram outra urgência: a de falar das mulheres no seu papel na História.”
E esse é o terreno que ela talvez tenha aplanado para os escritores – e leitores – seguintes. Vivemos num mundo pós-colonial, mas foi preciso primeiro escrever – e ler – o mundo colonial.
“Acho que essa experiência que então se chamava Ultramar foi a experiência cultural mais marcante do último século e meio para Portugal”, diz. Para Lídia Jorge é essa relação com os outros continentes e a experiência da violência da guerra que une os escritores da sua geração, os que foi lendo ao mesmo tempo que fazia o seu percurso como escritora, até perceber, mais tarde, que era talvez esse o contributo que estavam a dar: abrir portas para o imaginário do outro, o que lhe parece cada vez mais relevante num mundo onde nos podemos deslocar com uma velocidade estonteante, e onde essa velocidade física nem sempre vai a par com a mudança de mentalidades.
Hoje, acha, “desprenderam-se as amarras” da política, das escolas, de género, e interessa-lhe, como leitora também, a individualidade que a escrita permite. Como lhe interessa continuamente uma ideia de literatura em que o pensamento metafórico é capaz de nos transportar para os mistérios, resolvê-los ou deixá-los enigmáticos, mas sempre fazendo-nos comungar da humanidade. Continua a procurar nos autores novos, a descoberta, mas também a companhia. E a segurança de que, enquanto está aqui sentada a dar uma entrevista, “há milhares de páginas a serem escritas que podem renovar o mundo”.
“O que procuro nos livros que leio hoje: uma música e uma imagem gratificadora”, diz. Recentemente, descobriu um livro chamado La lucina, de António Moresco, e gostava de o ver traduzido. Um homem parte para uma floresta para viver isolado. E no entanto, à noite, na floresta onde julgava estar completamente só, uma pequena luz acende-se.FONTE: JORNAL PÚBLICO DE PORTUGAL.